Errar é humano...
Pois é, errar é humano mas, persistir no erro é burrice!
Há tempos atrás errei feio ao achar que pescaria era coisa de homem.
Sempre levei meu filho para pescar comigo, íamos para a roça pescar em rios,
para a praia e ilhas para pescar no mar e nunca levei minha filha comigo.
Um belo dia ela me cobrou isso e então a levei, tipo: Só para desencargo
de consciência.
E qual não foi minha surpresa quando chegamos ao pesqueiro. Não precisei
ensinar uma segunda vez, de primeira aprendeu a colocar isca, a fisgar o peixe,
a retirar o peixe da água, a tirar o anzol da boca do peixe, e por aí vai.
Fiquei admirado, realmente admirado com o comportamento dela, claro que ela,
para não fugir à regra, contou com a sorte de principiante (palavras do namorado,
hoje seu marido) pegou mais peixe que todos os participantes.
Depois desse dia, sempre que ia pescar, não deixava de convidá-la e até
minha esposa passou, também, a ser colega de pescaria.
Passou a época dois filhos e chegou a dos netos.
Ano passado quando meus netos estavam passando férias em minha casa
levei meu neto Murilo, o mais velho, para pescar. Saímos escondidos das meninas
(a irmã dele de 7 e a outra de 3) mas não adiantou nada pois na volta
questionado pela irmã Joana, Murilo acabou contando que tinha ido pescar e
disse mais: — Vovô pediu para não falar nada!
Pronto, como diz meu primo, fod...!
— Vovô, porque você não me levou na pescaria? Joana Helena cobrando.
— Não levei porque você, Maria Nina e Sofia não iam ficar quietas na
beira da lagoa, iam atrapalhar os outros pescadores. Respondi e lá veio o “não
é justo” que na época era o bordão que ela mais usava.
— Não é justo! Eu também queria ir, nunca fui pescar, você só leva o
Murilo.
— Tá bom... Na próxima pescaria levo você também, nas próximas férias
levo você.
— Vai demorar, não é justo... Falou reclamando mas, ao mesmo tempo se
conformando afinal eles iam embora no dia seguinte.
Este ano assim que chegaram em casa, mal desceu do carro e Murilo foi
logo dizendo que queria pescar.
— Vô você prometeu, também quero ir. Cobrou Joana Helena.
— Eu “tombem”, eu “tombem”! Exclamou Maria Nina, sem nem saber direito o
que ela “tombem” queria.
Murilo, da ultima vez que fomos pescar reclamou que queria pescar peixe
grande, então comprei para ele uma vara com molinete, para ele aprender a
arremessar.
Bom... Já me comprometi, quando Joana Helena fizer 10 anos, a comprar
uma para ela também pois assim que viu o equipamento que comprei para o irmão,
reclamou dizendo que também queria.
— Eu “tombem”, eu “tombem”! Exclamou Maria Nina.
Isso não vai prestar... Pensei comigo. Maria Nina na beira da lagoa não
vai prestar, vai ser um tal de ficar enfiando a vara na água, isso se ela não
cismar de dar uma varada na cabeça do irmão por algum motivo.
Temendo algo desse gênero minha esposa se prontificou a arrumar um jeito
de levar Maria Nina para passear no shopping.
— Eu posso comprar o que? Foi logo perguntando.
— Você pode comprar sorvete, balinha, doce...
— Então quero pescar!
Danadinha essa Maria Nina... Como minha filha disse que também iria na
pescaria justamente pra ficar de olho nela e que caso desse alguma alteração
saia com ela de lá, fomos todos para a pescaria.
Assim que as crianças entraram no meu carro já começou a discussão, cada
um reivindicando o direito de ficar segurando os apetrechos de pesca.
— Sem briga, se não se comportarem direito não levo mais pra pescar
comigo e você sabem que o vovô é brabo!
Como que por milagre fez-se um relativo silêncio...
Chegando ao pesqueiro, escolhemos um lugar para ficar e foi recomendado
às crianças, principalmente para as meninas que nunca estiveram num pesqueiro,
que não se aproximassem da beira da lagoa, que ficassem sentadinhas nos bancos
ou nas cadeirinhas de praia que levamos, enquanto o vovô preparava as varas.
— Vovô quero minha vara!
— Eu quero a minha “tombem”!
Depois do primeiro — Calma que o vovô é um só! O que se seguiu foi um
festival de prepara massinha, coloca massinha no anzol, desembaraça linha que
enroscou um na outra, arruma molinete que travou, prepara outra vara para o
Murilo porque ele estava com um equipamento mais pesado, para peixes maiores, e
a Joana que estava com equipamento leve já tinha pego alguns peixinhos e
começou a tripudiar dele, e chama a atenção porque começaram a brincar com o
puçá e toma-lhe pegar peixinhos e identificar o sexo deles.
É isso ai!
Identificar o sexo dos peixinhos. As meninas, a cada peixe que alguém
pegava corriam pra ver a ponta da cauda do bichinho, se fosse rosa era menina
se não, era menino.
Era tanta atividade que não deu tempo de pescar nem deu tempo de ver um
peixe, pelo jeito dos grandes, levar bóia e vara para o fundo da lagoa. Num
determinado momento minha filha pergunta:
— Cadê a bóia verde pai?
— Que bóia verde?
— Da vara que é do Murilo!
— Que vara?
A vara do Murilo não estava mais no lugar em que a deixei. Rodei em
volta da lagoa toda e nem sinal da bóia e nem da vara. Depois, o cara do
pesqueiro disse que era a segunda do dia que ia pro fundo da lagoa.
Foi na andança em volta da lagoa que me dei conta da situação. Fazia
mais de 2 horas que estávamos pescando e Maria Nina foi a única que estava
sempre sentadinha ou em pé num dos bancos do pesqueiro ou sentadinha numa das
cadeirinhas de praia e pasmem: Pescando!
Foi quem mais peixes pescou, uns 20 eu acho. Era um atrás do outro e
grande parte deles, sozinha. De repente se ouvia:
— Peguei, peguei, peguei!
E tirava da água sozinha.
— Deixa eu ver, é menina!
As vezes quando a tilápia era maiorzinha, de um palmo mais ou menos,
mais pesadinha, com mais força, se ouvia:
— Socorro, ta me puxando!
E segurava firme a vara a espera de alguém para ajudá-la. Maria Nina foi
um esculacho, até se meter a ensinar o irmão ela se meteu quando via a bóia
dele se movendo na água, dizia com toda propriedade:
— Puxa Murilo, puxa!
Quando minha filha comentou: — Tá vendo, e você não dava nada por ela.
Tive de concordar, tive que reconhecer que errara, pela segunda vez.
A danadinha arrebentou. Calou minha boca e como disse a vó dela: — Foi a
melhor pescaria até hoje!
Maria Nina foi a única que por antecedência já garantiu vaga na minha
próxima pescaria, quando iremos atrás dos peixes grandes...


