Zé Dito

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Se tem um cachorro que foi completamente feliz, tenho certeza que esse cachorro foi o Zé Dito. O Zé Dito apareceu na vida da Ana e do Nena assim meio sem querer, assim do jeito que aparecem os namoradinhos das filhas da gente, meio sem querer, e de repente estão dentro de casa, tão mexendo no forno sem pedir licença, daí a pouco já tão dando tapa na bunda da sogra e mijando cruzado com o sogro.

Esse cachorro foi exatamente assim. Apareceu por lá depois de grande já, levado pelo genro do Nena, o “presidente”. Quando chegou ninguém queria que ele ficasse principalmente porque a casa já tinha um cachorro, o Pretinho que apesar de estar bem velhinho, obeso, surdo e cego, ainda era o dono do pedaço.

Mas ele chegou e depois do “presidente” se comprometer em dar banho nele toda semana, limpar as sujeiras que por ventura ele fizesse, de não deixá-lo entrar em casa, o máximo que foi permitido era ficar na garagem, foi aceito.

O Zé Dito passava o dia na rua, só aparecia pra comer e à noite para dormir, mas o fato é que aos poucos alem da vasilha de água e outra de comida, ganhou uma caminha, um paninho pra se esquentar e um cantinho só seu na garagem da casa.

Tava ótimo, pra ele tava tudo bão, sem crise, sem disputa com o Pretinho, uma maravilha. Tinha cama, comida e a pelagem lavada.

Instalou-se de tal maneira que tempos depois o “presidente” e minha sobrinha casaram-se e foram morar em outra casa, ele ficou.

Instalou-se de tal maneira na vida de todos que por causa de suas farras na rua, o Nena teve que ir parar na delegacia.

O Nena repetia essa história sempre que se falava o nome do Zé Dito, ele dizia:

-- Nunca tive nada com a justiça. “Mardito” cachorro, não é que por causa dele fui intimado a comparecer na delegacia pra falar com o delegado?

E dava risada, ele também adorava esse cachorro.

O Zé Dito era um barato. Cedinho acordava e assim que abriam o portão social da garagem, ele sumia pela rua e ia até a padaria buscar pão.

É isso mesmo! Ele dava a volta no quarteirão e ia até a padaria onde o dono acostumou dar um pãozinho pra ele. Todo dia ia lá buscar, o dele é claro!

Voltava da padaria e ficava na calçada esperando minha prima sair. Ela tem um escritório de contabilidade perto da rua onde mora. Ela saía e o Zé Dito ia acompanhando até a porta do escritório, ela entrava, ele dava meia volta e sumia.

Onze horas da manhã, em ponto, ele estava na porta do escritório dela esperando para acompanhá-la até em casa para almoçar. Depois do almoço o mesmo ritual.

Isso sem contar que vez ou outra ele acompanhava as funcionarias da minha prima até o centro da cidade quando iam ao banco. Quando elas iam embora também, ele acompanhava as meninas até o ponto de ônibus e ficava com elas. Elas entravam no onibus, ele voltava pra casa.

Sem contar que quando o vizinho ia buscar o filho na escola, de bicicleta, ele ia atrás, todos os dias. Foi numa dessas que ele se foi. Saiu acompanhando o vizinho e ao chegarem numa avenida que tem um movimento intenso de carros, o visinho parou para esperar os carros passarem e ele não.

Os cachorros não possuem noção de velocidade, por isso são atropelados.

Coitadinho, sabia o caminho, o vizinho parou e ele simplesmente continuou caminhando, foi atropelado, morreu na hora.

Foi uma grande perda, mas sabe de uma coisa?

Penso que ele morreu feliz, ele foi um cachorro completamente feliz, viveu livre, solto, como um cachorro e morreu como tal, teve uma morte de cachorro e ao que parece não sofreu muito, pois a morte foi instantânea.

Entre os inúmeros textos que minha prima Ana me manda, teve um em particular que gostei muito, que falava dos anjos de quatro patas referindo-se a essas criaturas de quatro patas que entram na vida da gente, de tal maneira, trazendo alegria.

Para mim o Zé Dito era um desses anjos. Apareceu na vida deles quando o Pretinho já estava bem velhinho, sofrendo com o problema da obesidade, surdez, cegueira e outros problemas mais que acabaram por levá-lo a uma morte assistida, pois não havia mais o que fazer a não ser aliviar o sofrimento.

Não que a presença do Zé Dito fosse substituir a do Pretinho, mas com certeza a presença dele ajudou, e muito, a diminuir o sofrimento, ajudou a desviar a atenção quando o Pretinho se foi. Quando todos pareciam ter assimilado a morte do Pretinho ele também se foi, mas fez isso do jeito dele, longe de todos, as pessoas mais queridas não o viram morrer.

Do jeito que ele chegou e foi entrando na vida de todos, ele se foi.

Assim meio sem querer, ao estilo Zé Dito!



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Um comentário:

ANA disse...

Oi primo querido!!!!
Você descreveu muito bem o nosso Zé Dito, ele era com certeza um cachorro muito feliz e o mais lindo dos vira-latas.
Obrigada por isso, por tanto carinho e sensibilidade.
Bjsssss.