taurus campinense








“Tiranotaurus Campinense”






— Pai?
— Sim!
— Você não aprende mesmo, né?
— Como assim?
— Você com essa história de dinossauro arrumou pra minha cabeça.
— Como assim?
— Você não disse pro Murilo que descobriu um osso de dinossauro no seu quintal?
— Não!
— Como Não? Ontem eu estava falando com a mamãe e você apareceu com um osso na mão e começou a conversar com o Murilo.
— Eu disse que descobri um osso, que não sabia do que era e perguntei pra ele se ele conhecia osso de dinossauro.
— Pai, não enrola. O que eu quero dizer é que você conhece seus netos, falou alguma coisa, eles querem na hora.
— E o que ele quer?
— Quer ir até sua casa desenterrar o dinossauro!
— Boa ideia!
— Boa ideia pai? Estamos no Peru!
— Coloca ele num avião, manda pra cá.
— Pois é, foi o que ele disse hoje cedo. Acordou dizendo: — Mamãe, tive uma boa ideia!
— Que boa ideia Murilo?
— Você compra uma passagem, me leva no aeroporto, o vovô Benedito me pega na casa dele, eu desenterro o dinossauro, depois o vovô Benedito me leva no aeroporto e eu volto pra cá de novo.
— Ta certo ele.
— Ta certo ele, pai? Agora não vai sossegar enquanto não formos embora pra ele desenterrar o tal dinossauro e, pior, vai ficar alugando minha cabeça todo dia.
Bom...
Pra encurtar a história:
Na noite anterior, quando minha esposa conversava com minha filha pelo Skype, chamei o Murilo e perguntei se ele conhecia osso de dinossauro. Ele na maior simplicidade respondeu: — Eu nunca vi um não vovô, por quê?
Mostrei-lhe então um pequeno osso e disse que havia encontrado enterrado no quintal de casa e que tinha outros, tinha encontrado pelo menos mais dois e que do jeito que estavam enterrados parecia que eram ossos de um rabo de animal.
Foi o suficiente para ele querer os ossos para ele e para querer vir logo até minha casa para ver de perto a descoberta.
Voltaram do Peru, para onde meu genro foi em missão do Exercito Brasileiro como instrutor de um curso de treinamento para Exercito Peruano, e tão logo chegaram em minha casa, Murilo foi logo perguntando:
— Onde está o dinossauro vovô?
Com a ajuda de uma lanterna, uma vez que quando chegaram já era noite, mostrei a ele onde achei o osso enterrado e que agora estava isolado como se fosse um sitio arqueológico para que ninguém tocasse e ele não parava de perguntar se podia ficar com os ossos para ele e queria desenterrar o dinossauro naquela noite mesmo. Não foi fácil convence-lo a esperar até o dia seguinte.
Ele adora dinossauros e além de skatista, militar como o pai, que é seu super-herói, ele quer ser paleontólogo quando crescer.
No dia seguinte, mal tomou o café da manhã, lá estava ele atrás de mim para começarmos a escavação. Pegamos as ferramentas e fomos para o “sitio arqueológico”. Lá, orientei para que escavasse devagar, tirando a terra com cuidado para não estragar os ossos e que, caso encontrasse ossos, não os tirasse do lugar para que a gente soubesse depois, como montar o esqueleto.
Ele foi fazendo o que eu disse com muito cuidado, mas a medida que os ossos do que parecia ser o rabo de um animal foi se revelando para ele, ele foi ficando cada vez mais ansioso, podia ver nos olhinhos dele, a ansiedade, a curiosidade, o espanto pela descoberta, a curiosidade em ver no que aquilo iria dar e ele foi ficando cada vez mais impaciente tanto que, me passou a responsabilidade em continuar escavando e começou a bater no muro, querendo por o muro abaixo, pois se o rabo do bicho estava do lado de cá, o corpo todo estava do lado de lá, na casa do vizinho.
Pedi calma, dizendo que o muro não era nosso, que era para esperar até a escavação chegar ao muro para ver para que lado iria. Ele aceitou esperar, mas pediu para que eu escavasse depressa, tamanha sua ansiedade.
Fui cavando até que não havia mais nenhum osso em continuação, o ultimo osso estava bem na divisa do nosso terreno, então chamei sua atenção:
— Veja Murilo, veja o ultimo osso, tira ele de lá. Ele tirou o ultimo osso do lugar e eu lhe mostrei que ele estava serrado.
— Está vendo? Vê como está serrado?
— Sim! Respondeu.
— Acho que o resto do bicho já foi encontrado por quem construiu essa casa do lado e quando a pessoa chegou aqui na divisa do terreno, serrou o osso e deixou o resto aqui.
Na sua inocência de criança, ele aceitou a explicação e se acalmou, passando a querer tirar do buraco todos os ossos que encontrou.
Mais uma vez pedi calma e mostrando meu senso de observação mostrei:
— Olha só Murilo, parece que os ossos tem um furinho bem no meio deles, acho que era por onde passava um nervo qualquer, que ligava os ossos.
— Nossa, é mesmo! Exclamou admirado.
— Espera que o vovô vai pegar um arame para passar pelos buraquinhos e montar o rabo do bicho.
Sai e voltei com um pedaço de arame que já estava guardado para a ocasião e fui passando por cada um dos ossos. Ao terminar enrolei as extremidades e “voilá”:
O esqueleto do rabo do dinossauro que estava enterrado no quintal da minha casa estava montado.
Murilo, todo orgulhoso, posou para as fotos exibindo ao lado do local da escavação, o esqueleto do rabo do dinossauro “Tiranotaurus Campinense” que ele levou para a casa dele, num estojo que o vovô fez, para exibir para os amigos da escola.
Ja pensaram se o esqueleto do rabo desse bicho estivesse enterrado em outro local do terreno? Murilo iria cavar em todo o terreno até encontrar a outra ponta do bicho. Sorte minha que já fui criança e tambem tive muita imaginação, sorte minha que o ultimo osso do esqueleto estava serrado bem na divisa do terreno, sorte minha...
Um dia ele vai saber que os ossos vieram de um delicioso prato da culinária brasileira que a avó dele preparou para o avô e para o padrinho dele, daí o nome “Tiranotaurus”, vai saber como os ossos foram descarnados, tratados, montados para se chegar a composição ideal, furados e devidamente envernizados um a um, mas até esse dia chegar, deixa ele viajar na sua imaginação fértil de criança, deixa ele curtir o esqueleto do rabo de dinossauro que ele escavou no quintal do vovô, deixa ele curtir o doce prazer de ser um pequeno paleontólogo.

 



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